A realidade que habitamos: quando mudar não é apagar o passado, mas mudar de posição
Há uma ideia particularmente provocadora num trecho de William Walker Atkinson: aquilo que uma pessoa experimenta internamente pode não existir como realidade objetiva e, ainda assim, ser profundamente real para quem o vive.
Esta afirmação abre uma questão essencial:
Quanto da realidade que vivemos hoje pertence ao que está efetivamente a acontecer, e quanto pertence à forma como aprendemos a organizar internamente aquilo que nos acontece?
É precisamente neste espaço que podemos estabelecer uma ponte interessante com o Método Isabel Vieira da Silva — MIVS.
O que sentimos é real, mesmo quando a interpretação não corresponde ao presente
Uma das distinções importantes no trabalho de consciência é perceber que realidade objetiva e experiência subjetiva não são necessariamente a mesma coisa.
Imagine uma criança perante um acontecimento que não consegue compreender.
A criança ainda não dispõe dos recursos cognitivos, emocionais e relacionais de um adulto. Não consegue analisar todas as variáveis, compreender as intenções das pessoas ou contextualizar plenamente aquilo que está a acontecer.
Mas precisa de continuar.
E, por isso, o seu sistema encontra uma resposta possível.
Pode aprender a calar-se.
A antecipar o perigo.
A agradar.A controlar.
A afastar-se.
A tornar-se extremamente autónoma.
Ou até a ser aquilo a que, muitos anos depois, chamará “forte”.
Naquele contexto, essa resposta pode ter sido profundamente funcional.
O problema não está necessariamente na estratégia que nasceu naquele momento.
O problema começa quando uma resposta criada para um contexto continua ativa fora desse contexto.
O passado pode terminar sem que a organização criada nele termine
Este é um ponto fundamental.
Um acontecimento pode ter terminado há muitos anos e, no entanto, determinadas respostas associadas a ele continuarem presentes.
Não porque a pessoa escolha conscientemente viver no passado, mas porque aquela organização passou a fazer parte da forma como interpreta determinadas situações.
É aqui que podemos começar a compreender uma ideia aparentemente paradoxal:
podemos estar fisicamente no presente e responder a partir de uma organização construída no passado.
Uma palavra, um silêncio, uma expressão facial, uma rejeição, uma determinada forma de alguém se aproximar ou afastar pode adquirir um significado muito maior do que aquele acontecimento isolado contém.
Porque não estamos apenas perante aquilo que está a acontecer.
Estamos perante aquilo que aquilo significa para nós.
T1 — a realidade organizada no presente
No MIVS, podemos olhar para o T1 como o estado presente da experiência.
É aquilo que, naquele momento, está organizado como realidade para a pessoa.
O corpo responde.
A atenção seleciona informação.
Surgem pensamentos.
Determinados significados tornam-se mais disponíveis.
E a pessoa pode dizer:
“Eu sei racionalmente que não há razão para sentir isto, mas sinto.”
Esta frase é extraordinariamente reveladora.
Porque mostra que compreender intelectualmente alguma coisa não significa necessariamente que toda a experiência interna esteja organizada da mesma forma.
T2 — aquilo que sustenta a experiência
Quando começamos a observar essa organização, encontramos associações, memórias, crenças, generalizações, omissões, distorções, significados e aprendizagens.
Entramos no território que, no MIVS, podemos relacionar com o T2.
Não se trata simplesmente de procurar obsessivamente uma causa no passado.
Trata-se de perceber:
Que informação está a participar na construção desta experiência presente?
Porque aquilo que aconteceu e aquilo que ficou organizado a partir do que aconteceu são coisas diferentes.
Duas pessoas podem atravessar acontecimentos semelhantes e construir significados completamente diferentes.
É precisamente aí que encontramos a subjetividade.
T3 — quando a organização deixa de ser inevitável
A transformação não acontece porque apagamos a memória.
Também não acontece porque convencemos a pessoa de que aquilo que sente está errado.
A memória pode continuar a existir.
O acontecimento pertence à história.
Mas a posição interna a partir da qual essa história é experienciada pode modificar-se.
É aqui que situamos o T3.
T3 representa o processo em que a organização anterior deixa de ser a única possibilidade disponível.
Algo começa a reorganizar-se.
A pessoa observa de outra posição.
Percebe relações que anteriormente não percebia.
O que parecia inevitável começa a apresentar alternativas.
Até que surge um marcador particularmente interessante:
“Dou por mim…”
Dou por mim a reagir de maneira diferente.
Dou por mim a já não precisar de fazer aquilo.
Dou por mim a pensar de outra forma.
Dou por mim a perceber que aquela situação já não produz em mim exatamente a mesma resposta.
Nesse momento, não estamos simplesmente perante uma nova ideia.
Estamos perante a possibilidade de um novo T1.
Talvez o nosso “céu” e o nosso “inferno” também sejam estados de organização
Atkinson utiliza a linguagem espiritual do céu, do inferno, do Karma e do Plano Astral.
Independentemente da interpretação espiritual que cada pessoa faça destes conceitos, podemos retirar daqui uma reflexão poderosa para a vida presente.
Quantos “infernos” interiores são mantidos não pelo acontecimento atual, mas pela repetição de uma organização que um dia teve uma função?
E quantas vezes aquilo que chamamos liberdade começa quando conseguimos reconhecer:
“Isto foi necessário lá atrás. Mas será que continua a ser necessário aqui?”
Esta pergunta muda tudo.
Porque não rejeita o passado.
Não julga a estratégia.
Não entra em conflito com aquilo que fomos.
Reconhece que determinada resposta pode ter sido inteligente, adaptativa e até necessária dentro daquele contexto.
Mas permite perguntar se continua funcional fora desse contexto.
Consciência não é culpa. É possibilidade.
Existe ainda uma distinção indispensável.
Dizer que participamos na construção da nossa experiência interna não significa afirmar que somos responsáveis por tudo aquilo que nos aconteceu.
Uma criança não é responsável pelo comportamento dos adultos.
Uma pessoa não é responsável pela violência, abandono, perdas ou circunstâncias que outros lhe impuseram.
Confundir consciência com culpa seria profundamente injusto.
A questão é outra.
Podemos não ter escolhido aquilo que aconteceu.
Podemos não ter escolhido a primeira organização que surgiu para conseguirmos lidar com aquilo.
Mas, quando começamos a reconhecê-la, surge uma nova possibilidade:
participar conscientemente naquilo que fazemos a partir daqui.
Talvez seja esse um dos significados possíveis de avançar no caminho.
Não apagar.
Não negar.
Não fingir que nunca aconteceu.
Mas conseguir olhar para aquilo que aconteceu sem continuar necessariamente a viver lá dentro.
Porque chega um momento em que o passado já não precisa de desaparecer para deixarmos de lhe entregar o presente.
E quando a posição muda, aquilo que vemos, sentimos e fazemos a partir dela também pode mudar.
T1 → T2 → T3 → novo T1.
Talvez transformar seja exatamente isto:
não mudar aquilo que aconteceu, mas deixar de estar condenado a ocupar para sempre a mesma posição perante aquilo que aconteceu.
Método Isabel Vieira da Silva — MIVS Consciência. Organização. Transformação.





Comentários