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ENTRE CÁ E LÁ | Porque tive de passar por isto?

19 de out.
9 min de leitura

Quando a mente insiste, a realidade não corresponde e a luta para ficar bem também cansa.

Uma reflexão sobre a resistência, a aceitação, os padrões de funcionamento e a capacidade de reconhecer quando precisamos de rever o nosso caminho.


Quando a vida não corresponde àquilo que imaginámos

Há uma pergunta que muitas pessoas fazem, sobretudo quando atravessam momentos difíceis:

«Porque é que isto me aconteceu? Porque tive de passar por isto?»


É uma pergunta profundamente humana, que pode nascer da dor, da desilusão, da incompreensão ou da dificuldade em aceitar uma circunstância da vida.

Mas há algo que merece ser observado com maior profundidade.

Quantas vezes o nosso sofrimento não está apenas relacionado com aquilo que aconteceu, mas também com a insistência em querer que a realidade seja diferente?


Queremos que determinada relação resulte.

Que alguém nos compreenda.

Que as pessoas correspondam às nossas expectativas.

Que um projeto avance exatamente como imaginámos.

Que a vida siga o percurso que desenhámos na nossa mente.


E, quando isso não acontece, insistimos.

Tentamos novamente, repetimos comportamentos, alimentamos expectativas e procuramos explicações para aquilo que continua a não funcionar.

Até que surge uma sensação de cansaço, injustiça e frustração.


«Nada me corre bem.»

«Estou sempre a passar pelo mesmo.»

«Porque é que os outros me fazem isto?»

«Porque tenho de lutar tanto para conseguir ser feliz?»


Mas será que, em determinados momentos, estamos verdadeiramente a observar o que a vida nos apresenta?


Ou estaremos demasiado concentrados naquilo que queremos que aconteça?


E se o caminho que insistimos em percorrer já não corresponder às circunstâncias da nossa vida atual?


Esta é uma reflexão que exige disponibilidade para olhar para além daquilo que desejamos.


Quando o querer se transforma numa forma de resistência

Desejar faz parte da vida.

Ter sonhos, objetivos, projetos e expectativas é natural.

O problema não está em querer.

Está na dificuldade que, por vezes, encontramos em reconhecer que aquilo que desejamos pode não corresponder à realidade que estamos a viver.

A mente constrói possibilidades.

Imagina resultados.

Cria expectativas sobre pessoas, acontecimentos e circunstâncias.

E podemos começar a funcionar como se aquilo que imaginámos tivesse obrigatoriamente de acontecer.

Quando a realidade não corresponde, surge a resistência.

Resistimos ao fim de uma relação porque tínhamos imaginado uma vida inteira com aquela pessoa.

Resistimos a uma mudança profissional porque acreditávamos que aquele seria o nosso percurso definitivo.

Resistimos ao comportamento de alguém porque continuamos a esperar que essa pessoa seja diferente daquilo que repetidamente demonstra.

Resistimos a reconhecer que um projeto precisa de ser reformulado porque já investimos demasiado tempo, energia ou recursos para admitir essa possibilidade.

E continuamos.

Não necessariamente porque aquele seja o melhor caminho, mas porque abrir mão da expectativa pode ser mais difícil do que continuar a insistir.


Por vezes, estamos tão comprometidos com a vida que imaginámos que deixamos de observar a vida que efetivamente estamos a viver.


E é aqui que começa uma das questões fundamentais do trabalho terapêutico: compreender a diferença entre persistência e resistência.

Persistir pode significar continuar a construir, ajustando o percurso à medida que aprendemos.

Resistir pode significar continuar a exigir o mesmo resultado, apesar de reconhecermos repetidamente que alguma coisa precisa de ser revista.

Nem sempre é fácil distinguir uma coisa da outra.

É precisamente por isso que precisamos de observar.


Quando a responsabilidade parece estar sempre no outro


Existe outro aspeto importante nesta reflexão.

Quantas vezes atribuímos exclusivamente aos outros a responsabilidade por aquilo que estamos a viver?

O companheiro não compreende.

Os familiares não valorizam.

Os amigos desiludem.

Os colegas não colaboram.

A sociedade não reconhece.

A vida não ajuda.


E assim podemos construir uma narrativa na qual somos constantemente prejudicados pelas circunstâncias e pelas escolhas de outras pessoas.

É importante reconhecer que existem situações verdadeiramente injustas, relações prejudiciais e acontecimentos pelos quais não somos responsáveis.

Nem tudo depende de nós.

Nem tudo resulta das nossas escolhas.

E ninguém deve ser responsabilizado pelo sofrimento que outra pessoa lhe provocou.


No entanto, existe uma diferença entre reconhecer uma injustiça e organizar toda a nossa vida em torno da ideia de que a possibilidade de mudança depende exclusivamente dos outros.

Quando acreditamos que apenas o outro precisa de mudar, podemos deixar de observar aquilo que ainda está ao nosso alcance.

Que escolhas continuo a fazer?

Que expectativas continuo a alimentar?

Que limites tenho dificuldade em estabelecer?

Porque permaneço em determinadas situações?

Porque continuo a esperar resultados diferentes sem rever a maneira como estou a participar?


Reconhecer a nossa participação não significa assumir a culpa por tudo o que aconteceu. Significa identificar aquilo sobre o qual ainda podemos exercer alguma escolha.


É uma diferença profunda.

Porque enquanto toda a nossa atenção estiver concentrada exclusivamente naquilo que os outros deveriam fazer, podemos deixar de reconhecer as possibilidades que existem no nosso próprio percurso.


O Método Isabel Vieira da Silva: do «Eu Sou» ao «Dou por Mim»

No MIVS, uma das expressões fundamentais é:

«Dou por mim…»

Esta expressão convida-nos a observar aquilo que estamos a experienciar, em vez de nos definirmos automaticamente através das nossas reações, pensamentos ou emoções.

Repara na diferença.


«Eu sou uma pessoa que nunca tem sorte.»

Ou:

«Dou por mim a interpretar determinadas dificuldades como se nada pudesse correr bem.»


«As pessoas fazem-me sempre sofrer.»

Ou:

«Dou por mim a permanecer em relações nas quais continuo a alimentar expectativas que não encontram correspondência.»


«A minha vida nunca muda.»

Ou:

«Dou por mim a repetir determinadas escolhas, mesmo quando reconheço que os resultados não são aqueles que desejo.»


Na primeira forma de expressão, a pessoa pode identificar-se com uma conclusão sobre si própria ou sobre a sua vida.

Na segunda, começa a observar uma maneira de funcionar.

E essa distinção é importante.

Porque aquilo que pensamos, sentimos ou fazemos num determinado momento não precisa de definir permanentemente quem somos.

Através da observação, podemos começar a identificar respostas habituais, crenças, expectativas e padrões que participam na maneira como nos relacionamos com a realidade.

No MIVS, esta exploração integra diferentes dimensões do funcionamento.

O T1 permite observar a experiência no presente, incluindo as sensações corporais, as emoções e as respostas que se manifestam.

O T2 aprofunda a relação com memórias, crenças e padrões associados a essas respostas.

O T3 contempla a possibilidade de transformação e reorganização de formas de funcionamento anteriormente estabelecidas.

Não se trata de impor uma mudança nem de prometer que o reconhecimento de um padrão será suficiente para o modificar.

Trata-se de criar condições para que a pessoa possa compreender melhor o seu funcionamento e explorar outras possibilidades.

Porque existe uma diferença entre desejar mudar e estar disponível para participar no processo de mudança.


A resistência também pode ser uma forma de proteção

Nem sempre resistimos porque não queremos mudar.

Por vezes, resistimos porque aquilo que conhecemos nos transmite uma sensação de segurança, mesmo quando já não corresponde às nossas necessidades.

Uma pessoa pode reconhecer que determinada situação lhe provoca sofrimento e, ainda assim, sentir dificuldade em afastar-se.

Pode perceber que uma expectativa não corresponde à realidade e continuar a alimentá-la.

Pode identificar um padrão de comportamento e descobrir que não está preparada para experimentar outra resposta.

As resistências podem estar relacionadas com medos, aprendizagens, experiências anteriores ou necessidades de proteção.

Por isso, não basta dizer:

«Tens de aceitar.»

«Tens de deixar para trás.»

«Tens de mudar.»

Estas expressões podem transformar-se em novas exigências.


A resistência precisa de ser reconhecida e compreendida, não simplesmente combatida.


Mas compreendê-la também não significa justificar indefinidamente a permanência em todos os padrões.

Podemos reconhecer a razão pela qual determinada resposta se desenvolveu e, simultaneamente, questionar se continua a ser adequada às circunstâncias presentes.

É aqui que a pessoa pode começar a explorar a sua disponibilidade para fazer um caminho diferente.

E essa disponibilidade não pode ser imposta de fora.


Aceitar a realidade não significa desistir da vida

Talvez uma das maiores dificuldades humanas seja aceitar que nem tudo acontece como queremos.

Confundimos frequentemente aceitação com resignação.

Como se aceitar significasse perder, desistir, concordar ou abandonar aquilo em que acreditamos.

Mas aceitar pode significar algo muito diferente.

Aceitar é reconhecer as circunstâncias do momento, mesmo quando não correspondem às nossas expectativas.

Posso aceitar que uma relação terminou sem negar aquilo que senti.

Posso aceitar que determinada pessoa não corresponde ao que espero sem ter de concordar com o seu comportamento.

Posso aceitar que um projeto não está a resultar e decidir reformulá-lo.

Posso aceitar uma limitação presente e procurar maneiras de lidar com ela.

Posso aceitar que ainda não estou disponível para tomar determinada decisão.

E posso reconhecer uma situação injusta sem deixar de agir para a modificar.

A aceitação não elimina necessariamente a tristeza, a frustração ou o medo.

Também não significa permanecer em circunstâncias que nos prejudicam.

Significa reconhecer aquilo que existe para podermos avaliar, com maior clareza, o que pode ou não ser feito.

Porque, enquanto continuarmos a exigir que a realidade seja diferente antes de começarmos a agir, corremos o risco de ficar à espera de uma mudança que não depende exclusivamente de nós.

Aceitar não é deixar de escolher. É reconhecer a realidade a partir da qual as nossas escolhas precisam de ser feitas.


E quando o caminho precisa de ser revisto?

Há momentos em que continuar exige coragem.

Mas também existem momentos em que a coragem está em reconhecer que precisamos de mudar de direção.

Nem todos os projetos precisam de ser mantidos.

Nem todas as relações precisam de continuar.

Nem todas as expectativas precisam de ser concretizadas.

E nem todos os caminhos que um dia fizeram sentido continuam necessariamente a corresponder à pessoa que somos e às circunstâncias que vivemos.

Por vezes, o percurso não está errado.

Está simplesmente desajustado à realidade presente.

Outras vezes, insistimos porque sentimos que mudar de direção seria reconhecer um fracasso.

Mas será que rever uma decisão significa falhar?

Ou poderá significar que estamos finalmente disponíveis para integrar aquilo que aprendemos ao longo do percurso?

A vida não nos apresenta respostas definitivas para todas as situações.

Existem circunstâncias que podemos modificar.

Outras que podemos apenas influenciar.

E algumas perante as quais precisamos de encontrar formas de adaptação.

O desafio está em distinguir estas possibilidades.

Não para deixarmos de desejar ou construir.

Mas para não permanecermos indefinidamente presos a uma única maneira de imaginar a nossa vida.


Querer mudar não é o mesmo que estar disponível para mudar

Esta é, talvez, uma das reflexões mais importantes.

Muitas pessoas dizem:

«Quero ficar bem.»

«Quero que a minha vida mude.»

«Quero deixar de sofrer.»

«Quero ser feliz.»

Mas o desejo, por si só, não esclarece aquilo que cada pessoa está disponível ou tem condições para fazer.

Porque mudar pode implicar rever crenças.

Reconhecer padrões.

Aceitar limites.

Abandonar expectativas.

Estabelecer fronteiras nas relações.

Tomar decisões difíceis.

Ou simplesmente admitir que aquilo que desejávamos já não corresponde às circunstâncias presentes.

E nem sempre estamos preparados.

Nem sempre queremos.

Nem sempre conseguimos.

A disponibilidade também depende dos recursos, das condições e do momento de vida de cada pessoa.

Por isso, o caminho terapêutico não pode ser uma imposição.

Podemos acompanhar alguém, proporcionar condições de observação e convidar à reflexão.

Mas não podemos querer fazer o caminho em lugar dessa pessoa.

Existe uma diferença entre querer que alguma coisa mude e estar disponível para rever a nossa própria participação naquilo que desejamos transformar.

E reconhecer essa diferença também faz parte do processo.


ENTRE CÁ E LÁ — Quando a pergunta começa a mudar

Voltemos à pergunta inicial:

«Porque tive de passar por isto?»


Talvez tenha acontecido algo profundamente injusto.

Talvez uma expectativa tenha sido interrompida.

Talvez a realidade tenha seguido uma direção completamente diferente daquela que imaginámos.

Ou talvez estejamos a repetir uma maneira de funcionar que ainda não conseguimos reconhecer plenamente.

Cada experiência merece ser compreendida na sua particularidade.

Mas, quando nos encontramos repetidamente perante situações semelhantes, podemos experimentar uma observação diferente.

Em vez de perguntar apenas:

«Porque é que isto me acontece?»

Podemos também perguntar:

«Dou por mim a repetir alguma coisa?»

«Estou a reconhecer aquilo que efetivamente está a acontecer?»

«Continuo a esperar que outra pessoa mude para que eu possa seguir em frente?»

«Que parte deste percurso depende realmente de mim?»

«Estou disponível para aceitar que talvez precise de rever a direção que escolhi?»

Estas perguntas não oferecem soluções imediatas.

Mas convidam-nos a sair, por momentos, da repetição de uma explicação e a observar aquilo que estamos a fazer com a realidade que vivemos.

E, sobretudo, convidam-nos a reconhecer a diferença entre aquilo que desejamos e aquilo que estamos disponíveis para construir.


Uma última reflexão

A vida nem sempre corresponde aos nossos planos.

As pessoas nem sempre correspondem às nossas expectativas.

E aquilo que um dia desejámos profundamente pode deixar de fazer sentido no presente.

Não significa que tenhamos falhado.

Também não significa que tudo o que aconteceu tenha uma razão ou um propósito que precisamos de descobrir.

Significa que estamos perante circunstâncias que podem exigir de nós uma nova observação.

Talvez seja necessário continuar.

Talvez seja necessário parar.

Talvez seja necessário ajustar.

Talvez seja necessário aceitar.

Ou talvez seja necessário reconhecer que ainda não estamos disponíveis para fazer nenhuma dessas coisas.

E esse reconhecimento também merece atenção.

Porque a transformação não deve nascer de uma obrigação de sermos diferentes.

Pode começar quando nos tornamos disponíveis para reconhecer, com maior clareza, aquilo que estamos a viver, aquilo a que resistimos e aquilo que continuamos a escolher.

Não podemos construir uma vida exclusivamente a partir daquilo que a mente insiste em querer, ignorando continuamente a realidade que se apresenta.

É necessário observar.

Reconhecer.

Distinguir o que depende de nós daquilo que não depende.

E perceber se o caminho que continuamos a percorrer ainda corresponde à vida que queremos e podemos construir.

Talvez, a partir daqui, a pergunta deixe de ser apenas:

«Porque tive de passar por isto?»

E passe também a ser:

«O que continuo a fazer perante aquilo que me aconteceu e estou disponível para fazer alguma coisa de diferente?»

Porque, por vezes, não é a ausência de caminhos que nos impede de avançar.

É a dificuldade em abrir mão daquele em que continuamos a insistir, mesmo quando já reconhecemos que precisa de ser revisto.

E é aqui que começa a possibilidade de uma conversa diferente connosco próprios.

Uma conversa que começa Lá Dentro e continua Lá Fora.



Isabel Vieira da Silva Terapeuta Integrativa Cocriadora do Método Isabel Vieira da Silva — MIVS

ENTRE CÁ E LÁ — Conversas que começam Lá Dentro e continuam Lá Fora.










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