Se já percebeste o que precisas de mudar, porque continuas a fazer o mesmo?
Há momentos em que compreendemos perfeitamente aquilo que se passa connosco.
Sabemos que determinado comportamento já não nos serve. Reconhecemos padrões que se repetem. Identificamos crenças que nos limitam. Conseguimos até perceber quando e onde algumas dessas respostas começaram.
E, ainda assim, damos por nós a fazer exatamente o mesmo.
A reagir da mesma maneira.
A sentir o mesmo desconforto.
A entrar nas mesmas dinâmicas.
A escolher aquilo que racionalmente já sabemos que não queremos.
Então surge uma pergunta inevitável:
Se eu já percebi, porque continuo a repetir?
Talvez porque perceber seja importante, mas nem sempre é suficiente para transformar.
Compreender não é o mesmo que integrar
Durante muito tempo habituámo-nos a pensar que a mudança acontece sobretudo através da compreensão.
Se encontrarmos a causa, mudamos.
Se identificarmos a crença, libertamo-nos dela.
Se percebermos racionalmente o problema, encontramos a solução.
Mas a experiência humana é mais complexa.
Aquilo que vivemos não fica guardado apenas numa narrativa consciente sobre o passado. A experiência participa também na forma como sentimos, antecipamos, interpretamos e reagimos.
Por isso podemos compreender uma situação intelectualmente e continuar a ter uma resposta diferente daquela que gostaríamos.
Podemos dizer:
“Eu sei que não preciso de ter medo.”
E sentir medo.
Podemos pensar:
“Já não tenho razões para reagir assim.”
E reagir.
Podemos decidir:
“Da próxima vez vou fazer diferente.”
E, quando a situação acontece novamente, dar por nós exatamente no mesmo lugar.
Não significa que não tenhamos evoluído.
Significa que a compreensão ainda precisa de encontrar integração.
O corpo também participa na mudança
Esta é uma das bases importantes do Método Isabel Vieira da Silva — MIVS.
Quando uma pessoa vive uma experiência, não é apenas a sua capacidade racional que participa.
O corpo participa.
A atenção participa.
A respiração participa.
As emoções participam.
A forma como interpretamos o que está a acontecer participa.
E todas estas dimensões podem associar-se de tal forma que, perante determinadas situações, a resposta surge antes mesmo de termos tempo para pensar sobre ela.
É por isso que, muitas vezes, a pessoa diz:
“Eu sei que não devia sentir isto, mas sinto.”
No MIVS, não partimos da ideia de que essa resposta precisa simplesmente de ser combatida.
Procuramos compreender o que está a acontecer naquele sistema naquele momento e criamos condições para que outra experiência possa tornar-se possível.
Porque existe uma diferença enorme entre obrigarmo-nos a pensar de maneira diferente e começarmos, naturalmente, a responder de maneira diferente.
Antes de transformar, é preciso reparar
Existe uma tendência para querermos corrigir imediatamente aquilo que nos incomoda.
Sentimos uma emoção e queremos afastá-la.
Identificamos um comportamento e queremos eliminá-lo.
Percebemos uma dificuldade e queremos encontrar rapidamente a solução.
Mas há um momento anterior à mudança que considero essencial: reparar.
Reparar no que acontece.
Sem começar imediatamente por corrigir.
Onde sinto isto?
O que acontece à minha respiração?
O que muda no meu corpo?
Que pensamento apareceu?
Qual foi o primeiro impulso?
O que aconteceu imediatamente antes de eu reagir?
É neste espaço de atenção que podemos começar a reconhecer algo que, até então, acontecia de forma automática.
E aquilo que conseguimos reconhecer deixa de estar completamente invisível.
O corpo não precisa de obedecer à mente
Imagine alguém que passou muito tempo a responder a determinadas situações através da defesa.
Um dia essa pessoa compreende intelectualmente que já não precisa de se defender da mesma maneira.
A mente percebe.
Mas isso não significa que todo o sistema tenha imediatamente integrado essa nova realidade.
É aqui que muitas pessoas entram numa luta consigo próprias.
“Mas eu já trabalhei isto.”
“Eu já sei de onde vem.”
“Porque continuo a sentir?”
Talvez a pergunta possa ser outra:
O que ainda precisa de acontecer para que aquilo que já compreendi possa também ser experimentado de outra forma?
Esta mudança de pergunta é importante.
Porque deixamos de lutar contra a resposta e começamos a trabalhar com aquilo que está presente.
Quando a transformação deixa de ser apenas mental
No MIVS, trabalhamos a relação entre diferentes dimensões da experiência.
Atenção.
Imaginação.
Movimento.
Percepção corporal.
Respiração.
Linguagem.
Experiência emocional.
Não como peças independentes, mas como elementos que podem participar simultaneamente na construção de uma nova experiência interna.
É neste contexto que surge aquilo a que, no MIVS, chamamos Condição Holonómica Ativa.
De uma forma simples, podemos entendê-la como um estado experiencial em que imaginação, movimento e atenção participam conjuntamente, permitindo que a pessoa não fique limitada apenas à análise racional daquilo que está a viver.
Porque não queremos simplesmente que a pessoa pense numa possibilidade diferente.
Queremos criar condições para que possa experimentar essa possibilidade.
Saber que estou segura é diferente de sentir segurança
Esta diferença é fundamental.
Posso saber racionalmente que estou segura e continuar em alerta.
Posso saber que sou capaz e continuar a bloquear perante determinada situação.
Posso saber que mereço colocar limites e continuar a sentir culpa quando os coloco.
Posso saber que uma história terminou e continuar emocionalmente presa a ela.
Por isso, no processo de transformação existe um momento em que a pergunta deixa de ser apenas:
“O que é que eu sei?”
e passa também a ser:
“O que é que acontece dentro de mim quando vivo esta experiência?”
A partir daqui abre-se outra possibilidade de trabalho.
Não estamos apenas a acrescentar uma nova explicação à história.
Estamos a permitir que uma nova experiência encontre espaço para existir.
E então acontece o “dou por mim”
Há uma expressão que utilizo frequentemente no MIVS e que, para mim, representa um dos sinais mais interessantes de integração:
“Dou por mim…”
Dou por mim a reagir de maneira diferente.
Dou por mim a não sentir necessidade de responder imediatamente.
Dou por mim a colocar um limite sem a culpa que antes aparecia.
Dou por mim a respirar antes de agir.
Dou por mim perante aquela pessoa e já não sinto aquilo que sentia.
Dou por mim a fazer algo que anteriormente parecia impossível.
Há algo muito importante neste “dou por mim”.
A pessoa já não está constantemente a dizer a si própria:
"Tenho de mudar."
"Tenho de controlar isto."
"Tenho de fazer diferente."
Ela simplesmente começa a reparar que está diferente.
E é precisamente aqui que podemos distinguir esforço de integração.
Quando uma nova resposta começa a surgir com maior naturalidade, alguma coisa mudou na relação da pessoa com aquela experiência.
Transformação não é apagar o passado
Transformar não significa fingir que nada aconteceu.
Também não significa apagar memórias, eliminar todas as emoções desconfortáveis ou tornarmo-nos permanentemente imunes àquilo que a vida nos apresenta.
O passado faz parte da nossa história.
Mas uma experiência passada não precisa de continuar a determinar, da mesma maneira, aquilo que acontece no presente.
Podemos recordar sem voltar a ocupar emocionalmente o mesmo lugar.
Podemos reconhecer uma ferida sem continuar a organizar toda a nossa vida em torno dela.
Podemos compreender quem fomos sem ficarmos presos à obrigação de continuar a ser essa pessoa.
A história permanece. A relação com a história pode transformar-se.
A mente pode compreender antes de o corpo confiar
Talvez seja esta uma das ideias mais importantes deste artigo:
A mente pode compreender a mudança antes de o corpo confiar nela.
E não precisamos de obrigar um a vencer o outro.
Podemos criar condições para que, progressivamente, exista maior coerência entre aquilo que sabemos, aquilo que sentimos e a forma como respondemos.
Quando isso começa a acontecer, a transformação deixa de ser apenas uma intenção.
Começa a revelar-se na vida.
Na forma como comunicamos.
Nas escolhas que fazemos.
Nos limites que colocamos.
Nas relações que estabelecemos.
Naquilo que já não toleramos.
Naquilo que finalmente permitimos receber.
E, muitas vezes, só percebemos a dimensão dessa mudança algum tempo depois.
Quando uma situação antiga volta a acontecer…
e damos por nós a responder de uma forma completamente diferente.
Talvez a verdadeira transformação não aconteça quando conseguimos explicar perfeitamente aquilo que mudou.
Talvez aconteça quando aquilo que antes exigia esforço começa, simplesmente, a tornar-se uma nova forma de estar.
Porque compreender pode abrir a porta. Mas integrar é aquilo que nos permite atravessá-la.
Método Isabel Vieira da Silva — MIVS Transformar não é apenas compreender uma nova possibilidade. É criar condições para que ela possa ser vivida.





Comentários