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EU SOU Para além daquilo que aprendemos a ser

27 de set.
6 min de leitura

Há duas palavras que atravessam séculos de espiritualidade, filosofia e procura interior. Duas palavras aparentemente simples, mas que encerram uma das mais profundas questões da existência humana: EU SOU.


Quem sou eu, quando retiro os papéis que desempenho? Quem sou, para além das experiências que vivi, das crenças que adquiri e das histórias que conto sobre mim?


Desde muito cedo, aprendemos a definir-nos. Somos aquilo que nos disseram, aquilo que conseguimos alcançar, aquilo que perdemos e, tantas vezes, aquilo que nos fizeram acreditar que nunca seríamos capazes de realizar.


Construímos uma identidade a partir das experiências e, sem nos apercebermos, começamos a viver dentro dela.


Dizemos «eu sou inseguro», «eu sou ansioso», «eu sou assim» ou «eu nunca fui capaz de fazer diferente».


Mas será que somos verdadeiramente aquilo que afirmamos? Ou estaremos apenas a repetir uma forma de funcionamento que se tornou familiar?


Talvez o primeiro movimento de transformação comece precisamente quando deixamos de confundir aquilo que experienciamos com aquilo que somos.


A identidade que aprendemos a vestir


A nossa história começa muito antes de termos consciência de nós próprios.

As primeiras relações, os ambientes familiares, as experiências emocionais e as interpretações que construímos sobre o mundo vão participando na organização da nossa identidade.


Aprendemos a agradar para sermos aceites. A controlar para nos sentirmos seguros. A esconder emoções para evitar conflitos. A antecipar a rejeição para não voltarmos a sentir abandono.


Com o passar do tempo, aquilo que começou por ser uma resposta a determinadas circunstâncias pode transformar-se numa maneira habitual de viver.

E deixamos de questionar.


Simplesmente afirmamos: «Eu sou assim.»


No Método Isabel Vieira da Silva (MIVS), esta expressão merece uma atenção particular, porque pode encerrar uma identificação profunda com padrões que não representam a totalidade do nosso potencial.


Existe uma diferença entre afirmar «eu sou uma pessoa insegura» e reconhecer «dou por mim a funcionar a partir da insegurança».


Na primeira afirmação, a insegurança torna-se identidade. Na segunda, transforma-se numa experiência que podemos observar, compreender e, eventualmente, reorganizar.


É uma diferença subtil na linguagem, mas profunda na relação que estabelecemos connosco próprios.


Porque aquilo que conseguimos observar já não precisa de definir tudo aquilo que somos.


O EU SOU como consciência de existência


Nas tradições contemplativas, a expressão EU SOU encontra-se associada à consciência da própria existência.


Antes de sermos profissionais, pais, filhos, companheiros ou qualquer outra identidade construída, existe a experiência fundamental de estarmos presentes.


Existimos.

Sentimos.

Observamos.

Participamos na vida.


E, no entanto, passamos grande parte do nosso tempo identificados com pensamentos, emoções e narrativas interiores, como se cada uma dessas manifestações representasse uma verdade definitiva sobre nós.


Quando surge o medo, dizemos que somos medrosos. Quando experimentamos tristeza, podemos começar a definir-nos pela tristeza. Quando uma relação termina, podemos interpretar essa experiência como prova de que não merecemos ser amados.


A experiência transforma-se numa conclusão. A conclusão transforma-se numa crença. E a crença começa a orientar a maneira como vivemos.


Mas existe uma possibilidade diferente: reconhecer que uma emoção é uma experiência, não uma identidade permanente.


O EU SOU convida-nos a regressar a esse lugar de consciência anterior às definições.

Não para negar a história, mas para deixar de viver exclusivamente condicionados por ela.

Não somos apenas aquilo que nos aconteceu. Somos também a consciência que pode reconhecer o que aconteceu e participar na construção de uma nova experiência.


Quando o passado continua a responder no presente


Quantas vezes mudamos de relação, de trabalho ou de circunstâncias e, ainda assim, damos por nós a viver situações emocionalmente semelhantes?


Mudam as pessoas. Mudam os lugares. Mudam os contextos.


Mas a resposta parece continuar a mesma.


Basta um silêncio, um tom de voz, uma mensagem que demora a chegar ou uma expressão inesperada para que alguma coisa dentro de nós seja ativada.

O corpo reage antes mesmo de conseguirmos compreender o que aconteceu.

Surge a tensão, a necessidade de controlar, a vontade de fugir ou o impulso de nos defendermos.


E aparece aquela sensação tão familiar: «Outra vez…»


No MIVS, este momento representa uma oportunidade particularmente importante.

Em vez de nos identificarmos automaticamente com a resposta, podemos começar a observá-la.


O que está a acontecer dentro de mim?

Que experiência anterior poderá estar associada a esta reação?

Que crença estou a alimentar neste momento?

E, sobretudo, será que esta é a única maneira possível de responder?


A consciência não apaga o passado, mas pode modificar a relação que estabelecemos com ele.


Quando deixamos de responder exclusivamente a partir de uma memória antiga, abrimos espaço para uma experiência diferente no presente.


A transformação começa no corpo


Falar de consciência não significa permanecer apenas no pensamento.

O corpo participa continuamente na nossa experiência emocional.

Uma recordação pode alterar a respiração. Uma expectativa pode provocar tensão muscular. Uma sensação de segurança pode modificar a postura e a disponibilidade para agir.


Por isso, no MIVS, o trabalho de transformação integra o presente somático, as memórias e crenças e a possibilidade de reorganização dos padrões de funcionamento.

Através daquilo que designo por Condição Holonómica Ativa, integram-se três elementos: imaginação, movimento e atenção.


A imaginação permite explorar possibilidades para além das respostas habituais. O movimento envolve o corpo nessa experiência. A atenção permite reconhecer, acompanhar e integrar aquilo que está a acontecer.


Não se trata de repetir afirmações positivas enquanto o corpo continua a experimentar uma realidade completamente diferente.

Trata-se de criar condições para que uma nova possibilidade possa ser experienciada de forma consciente.


Se uma pessoa afirma «eu sou confiante», mas continua profundamente identificada com o medo, a repetição da frase poderá não ser suficiente para transformar o seu funcionamento.

Talvez seja mais interessante começar por reconhecer:


«Dou por mim a sentir medo. E, ainda assim, posso explorar uma forma diferente de estar nesta situação.»


A partir daqui, a transformação deixa de ser uma exigência e passa a ser uma possibilidade.


O poder criador da palavra


A palavra acompanha a maneira como organizamos a nossa realidade interior.

Aquilo que repetimos sobre nós próprios influencia a forma como interpretamos experiências, reconhecemos oportunidades e antecipamos acontecimentos.


Por isso, importa desenvolver consciência sobre a linguagem que utilizamos.


Quando afirmamos EU SOU, que realidade estamos a alimentar?

Uma identidade construída a partir da limitação?

Uma história que continuamos a repetir?

Ou uma presença consciente, disponível para descobrir novas possibilidades?


Na filosofia do MIVS, o EU SOU não pretende substituir a experiência humana por uma imagem idealizada de perfeição.


Não precisamos de estar permanentemente felizes, confiantes ou em equilíbrio para reconhecermos a nossa existência.


Podemos sentir medo e continuar presentes. Podemos atravessar uma perda e continuar inteiros na nossa essência. Podemos reconhecer fragilidades sem fazer delas a definição absoluta de quem somos.


O verdadeiro poder desta expressão não está em negar aquilo que sentimos, mas em deixar de entregar a nossa identidade a cada experiência que atravessamos.


Uma experiência de regresso a si


Convido o leitor a fazer uma pequena experiência.


Encontre um momento tranquilo e permita-se estar presente.


Observe a respiração, o contacto do corpo com o lugar onde se encontra e as sensações que surgem naturalmente.


Sem necessidade de modificar nada.


Agora, recorde uma frase que costuma utilizar para se definir e que, de alguma maneira, limita as suas possibilidades.


Talvez «eu sou incapaz de mudar», «eu sou uma pessoa que tem medo» ou «eu sou alguém que nunca consegue».


Repare no que acontece dentro de si quando pronuncia essa afirmação.


Depois, experimente substituir a definição pela observação.


«Dou por mim a funcionar desta maneira em determinadas circunstâncias.»


Permita que esta nova formulação encontre espaço.


Observe a respiração. A postura. Os pensamentos.


E imagine, por alguns instantes, como seria viver essa mesma situação sem precisar de reproduzir automaticamente a resposta habitual.


Não procure forçar uma emoção diferente.


Apenas permita a possibilidade.


Agora, interiormente, pronuncie:


EU SOU.


Sem acrescentar qualquer definição.

Sem precisar de demonstrar nada.


Apenas a consciência da sua existência.


Talvez descubra que, para além das histórias que construiu sobre si, existe um espaço de presença que não precisa de ser preenchido por rótulos.


Um espaço a partir do qual pode continuar a descobrir-se.


Para além do que fomos, aquilo que podemos permitir-nos ser


A transformação não exige que rejeitemos a nossa história.


As experiências vividas fazem parte do nosso percurso e merecem ser reconhecidas com respeito.

Mas honrar o passado não significa continuar a reproduzi-lo.


Podemos compreender as nossas respostas sem permanecer dependentes delas. Podemos reconhecer as nossas feridas sem transformar a dor numa identidade. Podemos agradecer às formas de proteção que desenvolvemos e perceber que algumas já não precisam de orientar a nossa vida.


Talvez seja este um dos grandes movimentos da consciência: deixar de procurar uma definição definitiva de quem somos.


Porque a vida não é uma identidade concluída.

É uma experiência em permanente desenvolvimento.

E, quando deixamos de afirmar «eu sou assim» como se estivéssemos perante uma verdade imutável, começamos a abrir espaço para uma pergunta profundamente transformadora:


«Quem posso dar por mim a ser, quando deixo de funcionar exclusivamente a partir daquilo que aprendi?»


O EU SOU deixa então de ser apenas uma expressão espiritual ou uma afirmação repetida mecanicamente.


Transforma-se num convite à presença, à responsabilidade consciente e à liberdade interior.

Não precisamos de nos tornar outra pessoa para iniciar esse caminho.

Talvez precisemos apenas de começar a reconhecer-nos para além daquilo que acreditámos ser.


Porque, por vezes, aquilo que procuramos Lá Fora começa precisamente no momento em que nos permitimos olhar Lá Dentro.


E é a partir daí que uma nova experiência de vida se pode tornar possível.


Isabel Vieira da Silva | MIVS

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