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Consciência e Espiritualidade: quando começamos a reparar em nós

13 de set.
6 min de leitura

Há uma pergunta que talvez seja anterior a muitas das perguntas que fazemos sobre espiritualidade:

Eu reparo verdadeiramente em mim?


Não apenas naquilo que penso sobre mim.

Não apenas na história que conto sobre quem sou.

Mas naquilo que acontece em mim enquanto estou a viver.



Porque podemos conhecer muitas teorias, fazer práticas espirituais, procurar respostas, compreender intelectualmente determinados padrões e, ainda assim, continuar a dizer:

“Outra vez…”


Outra vez respondi daquela maneira. Outra vez fiquei em silêncio. Outra vez senti o mesmo medo. Outra vez disse que sim quando queria dizer não. Outra vez o meu corpo reagiu antes de eu perceber porquê.


No MIVS, é precisamente neste lugar que uma expressão aparentemente simples ganha importância:

“Dou por mim…”


Consciência não é apenas pensar sobre nós


Quando falamos de consciência, é fácil confundi-la com pensamento.

Mas pensar sobre uma experiência e estar consciente da experiência enquanto ela acontece são processos diferentes.

Do ponto de vista científico, o cérebro não recebe simplesmente uma realidade pronta e depois reage a ela. A percepção resulta de um processo ativo no qual informação sensorial, memória, aprendizagem, contexto, expectativas e estado interno participam na construção da experiência.


Isto ajuda-nos a compreender algo importante:

não respondemos apenas ao que acontece. Respondemos também à forma como o nosso sistema interpreta aquilo que está a acontecer.


É por isso que duas pessoas podem viver a mesma situação e experiencia-la de formas profundamente diferentes.

E é também por isso que uma determinada palavra, um olhar, um silêncio ou uma situação aparentemente pequena podem produzir em nós uma resposta desproporcionada ao que julgamos estar a acontecer naquele momento.


O corpo pode alterar-se.

A respiração muda.

Surge tensão.

O coração acelera.

A atenção estreita-se.

Uma emoção aparece.


E, muitas vezes, só depois construímos uma explicação para aquilo que aconteceu.


A consciência começa a tornar-se particularmente interessante quando conseguimos reparar:

“Dou por mim a funcionar assim quando isto acontece.”


Já não estamos apenas a explicar-nos.

Estamos a observar-nos.


O corpo também participa na consciência


Durante muito tempo, no discurso comum, habituámo-nos a falar da mente e do corpo como se fossem duas entidades separadas.

Mas a investigação contemporânea sobre cognição e emoção mostra uma relação muito mais integrada.

O cérebro recebe continuamente informação proveniente do organismo: ritmo cardíaco, respiração, tensão muscular, temperatura, atividade visceral e muitas outras alterações fisiológicas.

A capacidade de perceber sinais internos do corpo é estudada através de um conceito chamado intercepção.

Isto não significa que todas as sensações corporais tenham um significado escondido, nem que exista uma tradução universal para cada sensação.

Significa algo simultaneamente mais simples e mais profundo:

o estado do corpo participa naquilo que sentimos e na forma como experienciamos o momento.


Por isso, quando no MIVS perguntamos:

“Onde sentes isso?”


não estamos necessariamente à procura de uma interpretação simbólica.

Estamos a trazer para a consciência uma parte da experiência que talvez estivesse a acontecer sem atenção deliberada.

E isso muda a posição de quem observa.


Saber de onde vem nem sempre muda aquilo que acontece


Há pessoas que conseguem explicar extraordinariamente bem a própria história.

Sabem porque têm determinado medo.

Conhecem acontecimentos da infância.

Reconhecem padrões familiares.

Já perceberam intelectualmente determinadas crenças.


E, no entanto, quando aparece um determinado contexto…

o funcionamento repete-se.


Isto não significa que compreender seja inútil.

Compreender é importante.

Mas conhecimento autobiográfico e mudança de resposta não são exatamente a mesma coisa.

As aprendizagens humanas envolvem redes de memória, emoção, hábitos, respostas corporais e padrões de atenção que foram sendo construídos ao longo do tempo.


É por isso que, no MIVS, interessa-nos não ficar apenas na pergunta:

“Porque sou assim?”


Podemos começar a perguntar:

“Quando dou por mim a funcionar assim?”


Com quem?

Em que contexto?

O que aconteceu imediatamente antes?

O que mudou no corpo?

Que pensamento apareceu?

O que fiz a seguir?

E existe algum contexto em que isto não acontece?


Esta última pergunta é particularmente importante.


Porque começa a desmontar uma afirmação muito frequente:

“Eu sou assim.”


Talvez não sejas “assim”.

Talvez dês por ti a funcionar assim em determinados contextos.


E isso não é apenas uma diferença de palavras.

É uma diferença de posição.


E onde entra a espiritualidade?


Aqui entramos num território diferente.

A ciência pode estudar determinados correlatos da experiência consciente, da atenção, da contemplação, da oração ou de práticas meditativas.

Pode observar alterações fisiológicas e atividade cerebral.

Pode estudar comportamento, percepção e experiência subjetiva.

Mas não dispõe de instrumentos para determinar cientificamente o significado último da existência, se existe uma dimensão transcendente ou qual interpretação espiritual de uma experiência é a verdadeira.

É importante reconhecer esta fronteira.


A espiritualidade não precisa de se disfarçar de ciência para ter lugar na experiência humana.


Ao longo da história e entre diferentes culturas, os seres humanos procuraram significado, transcendência, pertença, relação com o sagrado e compreensão da própria existência.


Uns encontram essa dimensão na religião.

Outros na oração.

Outros no contacto com a natureza.

No silêncio.

Na contemplação.

No Reiki.

Na música.

Num ritual.

Na relação com outra pessoa.


Ou simplesmente naquele momento em que alguma coisa dentro de nós parece adquirir um significado que não conseguimos reduzir imediatamente a palavras.


O MIVS não precisa de decidir pelo outro aquilo que essa experiência significa.

Pode fazer algo diferente:

ajudá-lo a reparar no que aconteceu.


Não precisamos de explicar tudo imediatamente


Imagine alguém que, durante uma prática, uma oração ou uma sessão terapêutica, sente calor nas mãos.

Outra pessoa poderá sentir um arrepio.

Outra poderá emocionar-se.

Outra poderá visualizar uma imagem.

Outra não sentirá absolutamente nada.


O problema começa quando transformamos imediatamente a experiência numa certeza:

“Isso significa isto.”

“Sentiste aquilo porque aconteceu aquilo.”

“Foi uma energia.”

“Foi o teu inconsciente.”

“Foi uma presença espiritual.”

“Foi apenas o cérebro.”


Em todos estes casos podemos estar a colocar uma explicação antes da experiência da própria pessoa.


No MIVS podemos permanecer por mais algum tempo num lugar diferente:


O que aconteceu em ti?

Onde começou?

O que mudou?

O que sentiste?

O que aconteceu imediatamente antes?

E depois?


Quando reparaste nisso, o que aconteceu a seguir?


A interpretação pode vir depois.

E poderá até ser diferente para cada pessoa.


Espiritualidade não precisa de ser fuga


Há também uma distinção que considero importante.

Uma prática espiritual pode ajudar-nos a estar mais presentes na nossa vida.

Mas também pode ser utilizada para não olhar para aquilo que está presente.

Podemos falar de luz enquanto evitamos a tristeza.

Podemos procurar constantemente “elevar a vibração” porque não queremos contactar com determinada emoção.

Podemos pedir sinais porque temos dificuldade em tomar uma decisão.


Podemos procurar uma nova prática, um novo terapeuta ou uma nova explicação sem nunca permanecermos tempo suficiente diante da pergunta:

“O que está realmente a acontecer em mim?”


A espiritualidade, quando aproxima a pessoa de si própria, pode tornar-se um espaço de consciência.

Quando serve apenas para fugir da experiência, pode fazer exatamente o contrário.

Por isso, talvez espiritualidade não seja estar sempre bem.

Talvez também seja conseguir permanecer presente quando não estamos.


“Dou por Mim” como posição de observação


É aqui que regressamos ao início.


Dou por mim.



Não significa vigiar constantemente tudo aquilo que fazemos.

Nem analisar obsessivamente cada pensamento.

Significa criar a possibilidade de reconhecer o funcionamento enquanto ele emerge.

“Dou por mim a ficar tensa quando…”

“Dou por mim a querer justificar-me quando…”

“Dou por mim a procurar aprovação quando…”

“Dou por mim a respirar de maneira diferente quando…”

“Dou por mim em paz quando…”


E repare numa coisa:

o “Dou por Mim” não serve apenas para aquilo que queremos mudar.


Também podemos começar a reparar naquilo que já funciona.

Quando é que dou por mim tranquila?

Quando é que dou por mim segura?

Com quem consigo ser espontânea?

Em que lugares o meu corpo parece descansar?

O que estou a fazer quando dou por mim verdadeiramente presente?


Porque consciência não é procurar permanentemente aquilo que está errado.

É aumentar a resolução com que conseguimos reconhecer como estamos a funcionar.


Talvez o início seja muito mais simples


Não precisamos de ter todas as respostas sobre consciência.

Também não precisamos de resolver cientificamente a espiritualidade.

Talvez possamos começar por uma experiência muito mais próxima.


Na próxima vez que surgir o conhecido:

“Outra vez…”


não termine imediatamente a frase.

Pare por alguns segundos.


E experimente substituir:

“Outra vez sou assim…”


por:

“Dou por mim a funcionar assim…”


E depois observe.

O que aconteceu antes?

O que está a acontecer no corpo?

Que pensamento apareceu?

Que vontade surgiu?

O que acontece a seguir?


Talvez nesse pequeno intervalo exista algo muito importante.

Porque, antes de transformar, existe a possibilidade de reconhecer.

Antes de procurar uma explicação, existe a possibilidade de experienciar.

Antes de perguntar ao mundo inteiro o que aquilo significa, podemos começar por reparar naquilo que está a acontecer Lá Dentro.


E talvez seja A Partir Daqui que consciência e espiritualidade deixem de ser apenas conceitos.

E comecem a tornar-se experiência.


Método Isabel Vieira da Silva — MIVS Consciência, experiência e transformação a partir da forma como damos por nós a funcionar.

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