Outono: quando Lá Fora muda, cuida também do que acontece Lá Dentro
O outono chega e, quase inevitavelmente, ouvimos falar em “deixar ir".
As folhas caem, os dias ficam mais curtos, a temperatura começa a descer e somos convidados a olhar para esta estação como um tempo de desapego.
Mas eu gosto de olhar para o outono de outra forma.
E se o outono não fosse apenas sobre aquilo que precisamos de deixar ir, mas também sobre aquilo que precisamos de reorganizar para continuarmos a sentir bem-estar?
Enquanto Aromaterapeuta e operadora do Método Isabel Vieira da Silva — MIVS, interessa-me observar aquilo que acontece quando o contexto Lá Fora muda e perceber como continuamos a funcionar Lá Dentro.
Porque a natureza não entra no outono tentando manter o verão.
A luz modifica-se. A temperatura desce. Os dias tornam-se mais curtos. As árvores alteram o seu funcionamento. O ritmo da própria natureza começa a ser diferente.
E nós também recebemos todos esses estímulos.
Talvez, por isso, o outono possa ser uma oportunidade extraordinária para criarmos novas rotinas de bem-estar.
Não necessariamente fazendo mais.
Mas fazendo de forma mais consciente.
Quando Lá Fora muda, será que Lá Dentro continuamos iguais?
Quantas vezes o contexto da nossa vida muda, mas continuamos a responder exatamente da mesma maneira?
Mudam os horários.
Mudam as exigências.
Mudam as relações.
Mudam as circunstâncias.
Mudamos até de estação.
Mas dou por mim a funcionar assim.
Esta expressão é muito importante dentro do MIVS.
Em vez de:
“Eu sou assim.”
Podemos começar a dizer:
“Dou por mim a funcionar assim.”
Parece uma diferença pequena, mas não é.
Quando digo “EU SOU”, posso transformar uma determinada forma de funcionamento numa definição de quem Sou.
Quando digo “dou por mim”, começo a observar.
E quando observo, abro espaço para reconhecer outras possibilidades.
O outono pode ser exatamente isso: um novo contexto onde podemos experimentar novas formas de cuidar de nós.
O corpo também percebe a mudança de estação
No MIVS, antes de procurarmos imediatamente explicações para aquilo que estamos a sentir, começamos pelo presente.
Aquilo a que chamamos T1 — o presente somático.
Como está o meu corpo agora?
Como está a minha respiração?
Como estou a dormir?
Como acordo?
Como está o meu nível de energia ao longo do dia?
Tenho movimentado o corpo?
Tenho criado momentos de pausa?
Ou continuo a exigir de mim exatamente o mesmo ritmo, independentemente daquilo que está a acontecer?
Estas perguntas não servem para procurar o que está “errado”.
Servem para reparar.
Porque o bem-estar começa muitas vezes aí: na capacidade de percebermos aquilo de que precisamos no contexto em que estamos.
E é precisamente aqui que gosto de integrar a Aromaterapia.
Aromaterapia: mais do que escolher um aroma agradável
Enquanto Aromaterapeuta, não olho para um óleo essencial apenas a partir da pergunta:
“Para que serve?”
Interessa-me também perguntar:
“Como posso integrar este aroma numa experiência de bem-estar?”
O olfato está profundamente ligado à forma como reconhecemos ambientes, pessoas, experiências e memórias.
Um aroma pode fazer-nos parar.
Pode tornar um espaço mais agradável.
Pode acompanhar uma rotina.
Pode transformar-se num marcador de determinado momento do nosso dia.
E é aqui que Aromaterapia e o MIVS se encontram.
Não se trata de pedir ao óleo essencial que faça o trabalho por nós.
Trata-se de integrar o aroma num contexto onde existem também:
atenção, respiração, movimento, ambiente e intenção.
No MIVS trabalhamos precisamente com esta relação entre imaginação + movimento + atenção.
Por isso, neste outono, proponho algo muito simples:
criar um ritmo aromático de bem-estar ao longo do dia.
De manhã: Limão + Frankincense - despertar e equilibrar
A forma como começamos a manhã pode influenciar a forma como entramos no restante dia.
E, no outono, quando as manhãs começam a ficar mais frescas e a luz se modifica, gosto de começar com duas coisas muito simples:
Limão e Frankincense.
São dois aromas completamente diferentes e é precisamente por isso que gosto desta combinação.
Lemon — Limão
O aroma do Limão é fresco, cítrico e luminoso.
Gosto de o integrar pela manhã como parte de uma rotina que procura trazer frescura, vitalidade e uma sensação de equilíbrio para começar o dia.
Abrir a janela.
Deixar entrar luz natural.
Beber água.
Movimentar o corpo.
Respirar.
E permitir que o aroma fresco do Limão faça parte desse primeiro momento.
Frankincense — presença
Depois temos o Frankincense.
Profundo, quente e resinoso.
Se o Limão acompanha o despertar, o Frankincense convida-me a fazer algo diferente:
estar presente.
E gosto particularmente desta combinação porque uma coisa não exclui a outra.
Podemos despertar sem começar imediatamente a correr.
Podemos ter energia e, simultaneamente, presença.
O Limão abre o dia. O Frankincense centra.
E aqui entra o MIVS.
Antes de começar todas as tarefas, experimenta parar durante alguns instantes.
Repara na respiração.
Sente os pés no chão.
Observa a postura.
E pergunta:
“Como está o meu corpo esta manhã?”
Não procures alterar imediatamente aquilo que encontras.
Primeiro, reconhece.
E depois:
“Como quero entrar neste novo dia?”
Lá Fora o dia começou.
Lá Dentro, estamos a criar condições para entrar nele conscientemente.
Durante o dia: Cypress — movimento e transição
À medida que os dias ficam mais frios, é natural passarmos mais tempo dentro de casa.
Mas o corpo continua a precisar de movimento.
Por isso, gosto particularmente de associar o Cypress ao movimento e às transições.
Não precisa de ser exercício estruturado.
Levanta-te.
Caminha.
Alonga.
Muda de divisão.
Se puderes, sai durante alguns minutos.
Observa a temperatura.
Olha para o céu.
Respira.
E deixa o aroma do Cypress marcar esse momento.
No MIVS, o movimento é importante porque não trabalhamos apenas através do pensamento.
O corpo participa na experiência.
Às vezes estamos há tanto tempo na mesma posição, no mesmo espaço e dentro da mesma sequência de pensamentos que uma mudança física muito pequena já introduz informação diferente.
Experimenta perguntar:
“Se eu mudar o movimento, o que muda na experiência?”
E repara.
Sem exigir uma resposta.
A casa também participa no nosso bem-estar
No outono começamos naturalmente a passar mais tempo dentro de casa.
Por isso, o ambiente merece atenção.
Antes dos óleos essenciais, há algo muito simples:
abre as janelas e renova o ar.
Mesmo nos dias mais frescos, alguns minutos de ventilação ajudam a renovar o ambiente.
Depois podemos recorrer à difusão aromática.
Uma combinação de que gosto particularmente nesta época é:
Wild Orange + Frankincense.
A Wild Orange traz uma nota cítrica, fresca e luminosa.
O Frankincense acrescenta profundidade e uma presença aromática quente e resinosa.
Juntos criam um ambiente que combina muito bem com esta época do ano.
Mas existe uma regra que considero importante na Aromaterapia:
mais não significa melhor.
Não precisamos de saturar o espaço.
O aroma deve participar no ambiente, não dominá-lo.
Ao final do dia: começa a preparar a noite antes de chegares à cama
Há um hábito que fomos perdendo: a transição entre o dia e a noite.
Passamos das tarefas para o telefone.
Do telefone para a televisão.
Da televisão para a cama.
E esperamos que o corpo compreenda imediatamente:
“Agora é para desligar.”
Mas podemos criar uma transição.
Diminuir gradualmente a intensidade da luz.
Reduzir estímulos.
Preparar o espaço.
Tomar um banho.
Respirar de forma mais tranquila.
E introduzir um aroma que comece a fazer parte desse momento.
A Lavender — Lavanda é uma escolha clássica para integrar numa rotina de relaxamento.
E gosto também da Mirra, sobretudo quando procuro um aroma mais profundo, quente e envolvente para o final do dia.
A Mirra traz-me precisamente essa sensação de regresso, recolhimento e enraizamento.
De manhã, abrimos.
Ao longo do dia, movimentamos.
À noite, recolhemos.
Uma prática MIVS + Aromaterapia para experimentares durante 7 dias
Não precisas de transformar todas as tuas rotinas de uma vez.
Durante sete dias, escolhe apenas um momento do dia.
Pode ser de manhã, a meio do dia ou à noite.
Escolhe o óleo essencial que queres associar a esse momento e utiliza-o sempre respeitando as indicações de utilização adequadas.
Depois experimenta esta sequência:
PARA
Interrompe aquilo que estavas a fazer durante alguns minutos.
REPARA
Como está o corpo?
Como está a respiração?
Onde existe tensão?
Onde existe conforto?
RESPIRA
Permite que o aroma faça parte daquele momento.
Não procures fabricar nenhuma emoção.
Apenas sente e observa.
MOVIMENTA
Muda a postura.
Abre os ombros.
Alonga.
Caminha alguns passos.
Deixa o corpo participar.
PERGUNTA
“Do que preciso agora para criar melhores condições de bem-estar?”
E escuta a resposta sem complicar.
Talvez precises de beber água.
Talvez de sair durante dez minutos.
Talvez de abrir uma janela.
Talvez de parar.
Talvez de movimentar o corpo.
Talvez de diminuir os estímulos.
Talvez simplesmente de respirar.
Bem-estar também se constrói através destas pequenas respostas.
O teu outono não precisa de muitos óleos
Também não precisamos de transformar a Aromaterapia numa coleção interminável de frascos.
Podemos começar com poucos óleos e saber exatamente porque os estamos a utilizar.
Para este outono, poderíamos criar uma pequena seleção:
Limão Para integrar na rotina da manhã e trazer um aroma fresco, cítrico e luminoso ao início do dia.
Frankincense Para momentos de presença, respiração e centramento.
Cypress Para associar ao movimento, à passagem e às transições do dia.
Wild Orange Para trazer luminosidade aromática ao ambiente da casa.
Lavanda Para acompanhar os momentos de relaxamento e a preparação para a noite.
Mirra Para o final do dia, quando procuramos um aroma mais quente, profundo e envolvente.
Não precisamos de usar todos.
A Aromaterapia consciente começa também por perceber:
O que faz sentido para mim, neste momento e neste contexto?
O outono não precisa de ser apenas sobre deixar ir
Talvez esta seja a reflexão que quero deixar contigo esta semana.
Quando olhares para uma árvore a perder as folhas, experimenta não pensar imediatamente:
“O que tenho de deixar ir?”
Pergunta antes:
“O que mudou no meu contexto e que cuidado preciso de atualizar?”
Porque talvez exista alguma coisa que já mudou Lá Fora e tu continues a responder Lá Dentro como se tudo permanecesse igual.
Quando Reparares nisso, não precisas de dizer:
“Eu sou assim.”
Experimenta:
“Dou por mim a funcionar assim.”
E depois acrescenta uma pergunta:
“O que posso fazer diferente agora para criar mais bem-estar?”
Talvez seja uma grande mudança.
Mas talvez não.
Talvez seja abrir a janela.
Procurar a luz da manhã.
Beber água.
Respirar o aroma do Limão.
Parar alguns instantes com o Frankincense.
Movimentar o corpo.
Criar um ambiente aromático em casa.
Diminuir a luz ao anoitecer.
Ou terminar o dia com a profundidade da Mirra.
Pequenos movimentos.
Pequenas mudanças de contexto.
Pequenas experiências que repetimos e que começam a construir uma forma diferente de estar.
Porque, no MIVS, aquilo que acontece Lá Dentro e aquilo que fazemos Lá Fora participam na mesma experiência.
E talvez seja esse o verdadeiro convite do outono:
não apenas deixar cair aquilo que já não queremos, mas aprender a criar as condições de que precisamos para viver melhor aquilo que começa agora.
Isabel Vieira da Silva Terapeuta Integrativa | Aromaterapeuta | Co Criadora do Método Isabel Vieira da Silva — MIVS





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